Lotayef: breaking the blockade of Gaza will be an important victory

Ehab Lotayef speaking in Brasil

[In Portuguese]

http://www.sedufsm.org.br/index.php?secao=noticias&id=1677

O que existiria no Oriente Médio não seria uma guerra entre palestinos e israelenses, mas sim, um conflito entre uma população que resiste contra uma ocupação militar, no caso, dos israelenses, que o fazem de forma ilegal e ilegítima. Enquanto isso não for resolvido, enquanto não houver o cumprimento das resoluções da ONU e de tratados internacionais, a paz não será possível. “A paz só existirá quando houver justiça social”, destacou a jornalista Baby Siqueira Abrão, correspondente do jornal “Brasil de Fato”, no Oriente Médio.

Ela esteve durante todo este ano trabalhando na região da Cisjordânia, um dos territórios ocupados por Israel. Juntamente com o ativista canadense da “Frota da Liberdade” (Freedom Flotilla), Ehab Lotayef, Baby esteve participando do Cultura na Sedufsm desta segunda, 3, cujo tema era “Guerra no Oriente Médio, quais as alternativas à paz?”. O debate teve a coordenação do professor de História da UFSM, Carlos Armani e contou com a presença de 40 pessoas.

Ehab Lotayef, que é engenheiro e trabalha com tecnologia da informação na Mcgill University, de Montreal (Canadá), discordou em pequena parte do argumento de que não se vive uma guerra. Para ele, existe uma guerra, mas ela não é recente. A guerra, segundo o ativista, que esteve, juntamente com Baby Abrão, participando do Fórum Mundial Palestina Livre (28/11 a 02/12), em Porto Alegre, a guerra é da justiça contra a injustiça. E o bloqueio a Gaza, que, segundo ele, passou a existir a partir da eleição do grupo político Hamas, em 2008, é parte dessa guerra.

O bloqueio imposto por Israel a Gaza ameaça a sobrevivência não apenas econômica dos palestinos, mas em diversos outros aspectos, e a vitória contra essa medida política e militar significará um passo importante em relação à ocupação com um todo, destaca o canadense de ascendência egípcia. Daí porque, desde 2008, grupos de ativistas em todo o mundo criaram o “Free Gaza Movement”, um movimento que objetiva romper esse cerco israelense a Gaza, do qual é parte integrante a “Frota da Liberdade”.

Apesar de todo o aparato bélico por parte do Israel, que inclusive abordou um barco de ajuda humanitária em maio de 2010, matando nove pessoas, durante seis vezes esse cerco já foi rompido. A atitude do governo Israel é tão ostensiva em relação àqueles que questionam esse isolamento imposto aos portos palestinos que, em julho de 2011, esse bloqueio, com apoio do governo da Grécia, se estendeu a portos em território grego, evitando que de lá saíssem embarcações de caráter humanitário.

A Arca de Gaza

Lotayef detalhou também o mais recente projeto que busca auxiliar a comunidade palestina dos territórios ocupados. Esse projeto se chama “The Gaza’s Ark”. A Arca de Gaza ajudará a revitalizar a construção de barcos, atividade hoje reduzida em Gaza em consequência do bloqueio israelense, e dará sua colaboração para assegurar a transmissão desse conhecimento, que vem desaparecendo (outro efeito do bloqueio), para as gerações mais jovens.

Apesar da repressão promovida pelo governo de Israel, ao invés de enfraquecer as iniciativas para romper o bloqueio a Gaza, o efeito tem sido inverso. Uma dessas ações é a do barco sueco Stelle, iniciada em outubro deste ano, cujo foco principal é passar em pelo menos 20 portos de países europeus divulgando os projetos dos ativistas, conscientizando a população. A Arca de Gaza tem manifestações favoráveis de ativistas e celebridades de várias partes do mundo, entre eles, o arcebispo da África do Sul (Nobel da Paz), Desmond Tutu, o jornalista australiano, John Pilger, o linguista norte-americano, Noam Chomsky, a filha de Che Guevara, Aleida.

Ehab Lotayef é bastante crítico sobre o papel do atual governo de seu país. Segundo ele, institucionalmente, o Canadá é um dos principais apoiadores da política israelense. Além de apoiar explicitamente Israel, o governo canadense reprime quem se manifesta contra essa política, destacou ele.

Sionismo

Em sua exposição, Baby Abrão, que tem ascendência palestina e libanesa, apresentou um vídeo composto por imagens de bombardeios das forças armadas israelenses a regiões habitadas por palestinos. As cenas, bastante fortes, deixaram a plateia impactada e foram justificadas pela jornalista como uma forma de tornar claro aquilo que as grandes redes de comunicação do mundo inteiro não mostram.

Para a ativista, não se pode entender o conflito atual sem ir às causas, que remontam ao surgimento do pensamento sionista, alguns séculos atrás, quando os primeiros sionistas, baseados na teoria de Theodor Herzl, decidiram que, para combater o anti-semitismo, necessitavam criar um “estado judeu”.

A jornalista argumenta que o sionismo não é um movimento exclusivo de judeus, mas sim, que envolve uma ideologia política que prega a superioridade racial. Entre os adeptos do sionismo se encontrariam não apenas judeus, mas também cristãos e até muçulmanos, que disseminam suas ideias em diversos espaços, como na cultura, através do cinema, e se espalham por setores econômicos vitais, como é o caso do sistema financeiro internacional.

Baby ressaltou que existem muitos judeus que discordam do sionismo, e, por isso, sofrem perseguição do governo de Israel. Justamente por existirem sionistas embrenhados em setores vitais da economia mundial é que há dificuldades em governos de outros países, através da ONU, proporem sanções a Israel, destaca a ativista brasileira, natural de São Paulo.

Apesar de já ter escapado de situações bastante arriscadas em território palestino, a ativista e jornalista não pretende desistir. Para o próximo ano, ela pretende voltar à região, desta vez se instalando em Gaza, e não mais na Cisjordânia. Bernadette Siqueira Abrão, mais conhecida por Baby, critica o governo brasileiro por ter acordos na área militar com Israel. Além das pressões políticas e diplomáticas contra Israel, empreender ações que causem efeito econômico é considerado fundamental por ela. “É essencial denunciar e boicotar empresas, como por exemplo, a Cola Cola, que apoiam essa política de Israel”, defende. “Tenho sofrido ataques e ameaças de sionistas através das redes sociais, mas isso não me intimida. Isso não me calará”, garante Baby.

Durante o debate ocorrido na Sedufsm, os ativistas circularam uma lista para interessados em compor um barco que sairia do Brasil em direção à Gaza. Caso venha a se concretizar, seria o primeiro caso de uma embarcação de apoio aos palestinos saindo da América do Sul.

Texto: Fritz R. Nunes
Fotos: Bruna Homrich
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
 


 

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